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Carvalheirando


Pinoquismo agudo

As autoridades sanitárias brasileiras estão preocupadíssimas. E não se trata da disseminação da gripe suína. Há uma epidemia ainda mais perigosa assustando a população. O vírus transmissor do pinoquismo agudo já extrapolou as barreiras do Congresso Nacional. Está estabelecendo moradia no organismo de personalidades relevantes do esporte nacional.

O mais novo hospedeiro da doença é o técnico da seleção brasileira de atletismo Jayme Netto Júnior. O treinador esteve presente em cinco Mundiais e dez Olimpíadas. Comandou o bem sucedido revezamento masculino dos 4x100m em dois Jogos Olímpicos. Medalhou prata e bronze. Treinador da equipe Rede, uma das mais importantes do País. Experiência a dar com o pau.

Vem agora afirmar, a uma semana do início do Mundial de Berlim, que desconhecia o doping de seis atletas seus pela manipulação da substância EPO, uma das maiores propulsoras e mais utilizadas para o doping genético. Todos foram pegos após um exame surpresa realizado em São Paulo pela Federação Internacional de Atletismo. A negligência é proporcional a de um pai que permite a ingestão indiscriminada de açúcar a um filho diabético.

Diante do rigor das fiscalizações e divulgação constante das substância proibidas, é inimaginável acreditar que um dos profissionais mais gabaritados do atletismo mundial desconheça os efeitos da EPO. Outra hipótese seria a de que Jayme Netto confunda a imprensa e o público com descendentes de Gepeto. Um bom carpinteiro que faz vista grossa para as mentiras do filho.

A fórmula é muito fácil. O exemplo de José Sarney está aí para todo mundo ver. O cidadão tira proveito burlando um regulamento. Quando pego, diz que desconhecia o mal provocado por tal atitude. Faz uma carinha de santo e chora em frente às câmeras. É absolvido ou recebe uma punição de fachada. Pouco tempo depois retorna esquecido pela população e repete o comportamento.

A Copa do Mundo é logo ali. A promessa antes da confirmação do Brasil como sede era de que não haveria o envolvimento de verba pública para a construção de estádios. Ontem Ricardo Teixeira já admitiu a utilização do nosso dinheiro para cumprir o seu projeto de poder. A tendência no final das contas é que a maior fatia do financiamento seja de prefeituras e governos.

Não há mais indignação popular, as pessoas estão anestesiadas. Engolem as lorotas com a mesma naturalidade com que bebem água. Não as culpo. As investigações e processos públicos são arquivados na cara de pau, não é mesmo, senador Paulo Duque (PMDB-RJ)? Proponho que o cidadão brasileiro assuma de uma vez a condição de Gepeto.

Cada um que monte o seu próprio Pinóquio e crie o boneco dentro das novas normas de convivência social do País. A mentira em larga escala, assim como o futebol e o carnaval, será daqui por diante divulgada mundo afora em propagandas de pacotes turísticos como uma das principais manifestações culturais dos Brasileiros. Meu nariz já é grande mesmo. Não vejo problema se crescer um pouquinho mais.



Escrito por Rafael Carvalheira às 16h28
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Pôquer

Numa cobertura em Ipanema, Romário acendeu o quarto charuto por volta das 3h da madrugada. Raspou os companheiros na última mão de pôquer cinco minutos antes. Ronaldo Fenômeno tragava o gole derradeiro da terceira garrafa de Jack Daniels. Robinho estava no banheiro, enquanto Ronaldinho Gaúcho revisava o extrato de uma das suas contas bancárias.

Sem mais para apostar naquela noite, levado pela embriaguez, o Fenômeno propôs que os quatro colocassem sobre a mesa riquezas subjetivas. Na falta de dinheiro, estavam em jogo dali para frente as características e feitos individuais de cada um. A televisão ligada na ESPN Brasil, a meio volume, reprisava o noticiário esportivo da noite anterior.

O próprio gorducho iniciou a rodada relembrando as três recuperações milagrosas. Orgulhava-se da capacidade de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Deu ênfase, ainda, às arrancadas fulminantes, principalmente quando estava no Barcelona. Fechou com os 15 gols em Copas do Mundo, um recorde que talvez jamais seja igualado.

Com a dicção confusa, resultado do álcool, Robinho engatou o companheiro se gabando das oito pedaladas para cima de Rogério na final do Campeonato Brasileiro de 2002, da capacidade de driblar adversários no espaço de um lenço e da atuação individual espetacular na Copa América de 2007. Segue até hoje como a venda mais cara da história do futebol brasileiro.

Ronaldinho Gaúcho não deixou por menos, apoiado nos dois anos espetaculares pelo Barça. Habilidade mágica com a bola nos pés, pensamento rápido e malabarismo objetivo. Plasticamente, responsável por vários dos lances mais encantadores já vistos, em todas as épocas. Merecedor de elogios rasgados de Maradona e grande ídolo do impressionante Messi.

A mesa girou e desaguou em Romário. O baixinho, obviamente, iniciou pela Copa do Mundo de 1994. Sua obra-prima. Mandou soltar e prender nos Estados Unidos. O atacante com o maior senso de colocação dentro da área. Autor de mais de mil gols na carreira. Desafiou os zagueiros até os 40 anos, tamanha era superioridade exercida sobre os brutamontes.

Quase meia hora depois, com os lances à mesa, Rivaldo acorda repentinamente. Avesso a jogos de azar, o craque da Copa do Mundo de 2002 estava cochilando no sofá, alheio ao que se passava na banca de apostas. Alertou o quarteto para o programa que acabara de começar na ESPN Brasil. Pediu autorização de Romário para aumentar o volume.

O documentário repassava a limpo a carreira esportiva de Pelé. Mestre como marcador, passador, driblador e finalizador. Perfeito fisicamente, taticamente e tecnicamente. Sabia até apelar para a catimba quando necessário. Campeão do mundo três vezes pela Seleção e duas pelo Santos. Prezava pelo profissionalismo típico dos europeus, mesmo nas décadas de 1950, 60 e 70.

Imortalizou a camisa 10. Balançou as redes 1.284 vezes. Interrompeu momentaneamente até uma guerra na África para desfilar suas qualidades. Eleito melhor jogador e atleta do século passado por jornalistas, Comitê Olímpico Internacional, companheiros de profissão e, por fim, pela Fifa. Personalidade do mundo.

O filme terminava com um gol marcado pelo Rei na final da Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Misturada aos créditos, a imagem do menino de 17 anos matando a bola no peito dentro da área, chapelando o zagueiro sueco, inclusive escapando de um atentado ao seu joelho direito, e encaçapando no canto direito do goleiro.

Cinco minutos de silêncio. Romário, Ronaldo Fenômeno, Robinho e Ronaldinho Gaúcho decidiram que na segunda-feira seguinte cada um deles disponibilizaria o triplo do cacife estabelecido até então. Medida de precaução apropriada. Justamente na outra semana a ESPN Brasil relembraria os feitos de uma tal Mané.



Escrito por Rafael Carvalheira às 16h24
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Palavrões, bananas e dedadas

Vamos falar com sinceridade. Torcedor de futebol é na verdade muito chato, beirando o insuportável. O desabafo de Léo Moura contra a torcida do Flamengo foi bem pregado. Mais engraçado é constatar que os “coitadinhos” se doeram todos com algumas palavrinhas mais duras.

Vamos ao objeto do comentário: “Vão tomar no c..., cambada de filho da p..., vão se f...”. Digamos que o desabafo após o gol não compensou em 0,000001% o que Léo Moura já deve ter escutado desde o início da carreira, passando por Fluminense, São Paulo e Palmeiras, por exemplo.

Nunca gostei muito do futebol de Léo Moura, mas o fato é que ele foi eleito o melhor lateral-direito do Campeonato Brasileiro nas duas últimas temporadas. Chegou à Seleção Brasileira e não é nem de perto um dos piores jogadores do elenco do Flamengo, nunca o vi fazer corpo mole.

Como os flamenguistas, outras dezenas de jogadores já se viraram contra a própria torcida. No meio do jogo, após um gol, durante uma substituição, em entrevista coletiva. Palavrões, bananas, dedadas. Teve gente até arriando o calção para as arquibancadas.

O torcedor pensa que é soberano. Pode esculhambar, vaiar, xingar todo mundo, mas não quer receber o troco. “Ai, meu Deus do Céu. Léo Moura está desrespeitando a imensa história de glórias do Flamengo. Uma torcida inigualável. Blá, blá, blá, blá, blá, blá...”

Não tem nada disso. Léo Moura apenas respondeu de forma direta a uma cambada de filho da p... da torcida organizada Raça Rubro-Negra que apoia ou deixa de apoiar ao sabor das injeções financeiras, ou falta delas, repassadas pelos próprios jogadores e/ou diretores, obviamente sob ameaça.

Uma confusão com torcedores nas Laranjeiras terminou em tiros recentemente. Romário já havia inclusive trocado tapas no mesmo Fluminense. Richarlyson é xingado de veado sistematicamente pelos são-paulinos. Ciro perdeu a cabeça com um grupo de filhinhos de papai.

Não faltam episódios com pipoca, galinhas, ovadas, agressões em aeroportos, vaias descabidas, até “moedadas”. Estou com Léo Moura e qualquer outro jogador que seja agredido e responda à mesma altura a essa “cambada de filho da p...”



Escrito por Rafael Carvalheira às 14h46
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