Velha fofoqueira

Uma das modalidades preferidas entre as pessoas envolvidas com o futebol, diga-se de passagem uma característica mundial, é o famigerado leva e traz. O noticiário corriqueiramente se assemelha a conversas de uma velha fofoqueira. Assuntos que não “infloem” nem “contriboem” viram até manchete. O noticiário sobre o Sport hoje no Aqui PE é um exemplo bem acabado disso: “Sílvio Guimarães diz que Leão está gagá”. Bem grande, em três quartos de página. A derrota para o Cruzeiro em Minas Gerais mereceu um quase roda-pé ofuscado pela gripe suína de Sandra Annemberg. Leão também foi consultado no final da manhã pelo programa esportivo da JC/CBN, mais precisamente pelo radialista Ralf de Carvalho, sobre como se sentia com as declarações do presidente do Sport. Macaco velho, o treinador, dispensado sem maiores constrangimentos, levou na brincadeira. Na verdade o treinador já havia conversado com o próprio Sílvio Guimarães sobre o ocorrido, provavelmente às gargalhadas ao telefone. Uma dessas velhas fofoqueiras fez o serviço de leva e traz. Assunto relevante para alguns componentes da mídia; piada para os protagonistas do episódio. As lavadeiras de plantão também entraram em ação no Náutico nos últimos dias. Dá para explicar como um desentendimento entre dois jogadores dentro da sala de um hotel, a poucas horas do início de um jogo importante e com direito a agressões físicas, vazou minutos depois de ter acontecido? Com a proliferação das dezenas de sites de torcedores e blogs, então, a fofocaiada virou uma febre. Antes da derrota para o Sergipe, recentemente o Blog do Santinha divulgou irresponsavelmente a suposta existência de um grande complô por parte dos jogadores para derrubar o técnico Sérgio China. As discussões recorrentes de Guilherme Beltrão com Vanderlei Luxemburgo via imprensa – jornais, rádios, internet, tv... – entraram para os anais. Quem não se esbaldou com os capítulos diários da novela? Até Plano Cruzado, inadimplência condominial e acusação por assédio sexual ganharam evidência. Os estudiosos costumam entender o futebol como uma representação da sociedade em menor escala. Na era das celebridades, da invasão de privacidade a torto e a direito, interesse exacerbado na vida dos vizinhos, nada mais natural portanto que a valorização das velhas fofoqueiras também no futebol.
Escrito por Rafael Carvalheira às 16h01
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Circo

Circo da Fórmula 1 nunca foi uma expressão tão apropriada para a principal categoria do automobilismo mundial quanto nas últimas três temporadas; precisamente a partir do anúncio da aposentadoria do fenômeno Michael Schumacher. Com o alemão também foram os últimos resquícios de glamour. As corridas, com ou sem o heptacampeão, já não seduziam ninguém além dos poucos fanáticos. Muito menos os pilotos que sobraram eram figuras interessantes e de apelo internacional. A categoria indubitavelmente perdeu encanto, consequentemente espaço na mídia e belas cotas de patrocínio. Vem cambaleante. Explorada mais por factóides e escândalos do que propriamente pela competição. Esta já não existe. Em 2007 as atenções estavam voltadas para o caso de espionagem industrial envolvendo as duas principais escuderias. Também “inventaram” um piloto negro, bem novinho, para oferecer um frescor ao noticiário. De supetão, alguém lembra o campeão? Na temporada seguinte explodiram “sem querer” o caso da suruba nazista do presidente da Federação Internacional de Automobilismo. Max Mosley foi pego com prostitutas trajadas com uniformes alusivos aos do exército de Adolf Hitler. Rapidamente, qual foi a melhor escuderia? Este ano, então, vem sendo uma festa. Em fevereiro “escapou” a polêmica em torno de artifícios aerodinâmicos irregulares. Deixaram equipes pequenas dispararem pra maquiar o desequilíbrio. Depois vieram especulações acerca de um suposto final da categoria. Foi um tal de chororô, gritaria, escândalo. A imprensa especializada manteve-se alimentada pelos factóides. A Rede Globo, obviamente, não ficou de fora, afinal precisa manter o interesse do público. Pagou milhões por exclusividade no Brasil até 2014. A mais nova coqueluche é o olho esquerdo de Felipe Massa. O coitado não pode sequer se recuperar em paz. Jamais correu risco de morrer. Nem sequer em coma entrou. Vivia um processo natural de recomposição. Mas o hospital militar de Budapeste parecia a casa do BBB. Até o médico do GP do Brasil convenceram os familiares a chamar para colher informações com facilidade. Obviamente os médicos húngaros estavam pouco se importando se alguém precisava preencher a grade de programação destrinchando o olho do rapaz. Apelos baratos de prece da esposa. Também se aproveitaram do estado de apreensão da coitada. Massa falou, virou notícia. Massa fez xixi, virou notícia. Massa sentiu fome, virou notícia. Massa cortou as unhas, virou notícia. Pintou os cabelos, virou notícia. Galvão Bueno de plantão na frente do hospital se assemelhava àquelas velhinhas que ficam zanzando pelo Cemitério de Santo Amaro procurando velórios. Alguém por acaso pode me informar qual foi o pódio completo do GP da Hungria? Massa vai deixar o hospital, sairá do foco. Abatido pelo tratamento e sugado pela mídia. Mas o circo não pode parar. Já estão inventando agora o retorno de Schumacher para substituir o brasileiro até o fim da temporada. E haja factóide para sustentar uma competição falida.
Escrito por Rafael Carvalheira às 12h26
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Equação

A janela chega todo semestre. Sempre com data para começar e terminar. Em janeiro, aparece de forma mais branda. Em agosto, passa como uma tempestade. Arrasta o que interessa e se despede sem deixar contrapartida. Keirrison, Nilmar, Douglas, André Santos, Cristian, Ramirez e outra penca já saíram. Ciro, Neimar, Dentinho, Hernanes e companhia são os próximos alvos da janela. Há um certo fingimento em torno dela. Um comportamento maquiado. No fundo, no fundo, a janela funciona como uma espécie de tábua de salvação. Os dirigentes levantam as mãos para os céus com as vendas. Os empresários lucram os tubos. Os jogadores sonham em atuar no futebol estrangeiro. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também fecha os olhos para o problema. O valor cobrado pela entidade por uma apresentação amistosa da Seleção Brasileira é diretamente proporcional à valorização dos convocados. Na Estônia, por exemplo, os cartazes de divulgação do confronto amistoso no país contra o Brasil estampam um desenho estilizado de Ronaldinho Gaúcho, embora o dentucinho esteja fora das convocações de Dunga há um bom tempo. Os torcedores são os únicos, de fato, afligidos com o êxodo. Raramente curtem os ídolos por mais de uma temporada, o que causa falta de identificação com os times locais. As crianças curtem Manchester United, Barcelona, Real Madrid, Milan... O Internacional, decantado como um dos clubes mais organizados da América Latina, executa o planejamento anual com a previsão de venda de pelo menos um peso-pesado. Partiram Daniel Carvalho, Rafael Sóbis, Alexandre Pato, Bolívar, Tinga, Fernandão e Nilmar pela segunda vez. O Sport no momento não quer saber de Libertadores da América ou Sul-Americana. Mais importante é Ciro estourar no Mundial Sub-20 e render pelo menos duas temporadas de sanidade financeira aos rubro-negros, além de um centro de treinamentos. Alguns conceitos já foram deturpados. Basta conferir a declaração recente do diretor do Corinthians Mário Gobbi: “Futebol nada mais é do que business. Alguns já saíram, outros vão sair, e vamos repor as peças com muito cuidado”. De acordo com a premissa de Gobbi, podemos concluir que as mais variadas competições são vistas exclusivamente como vitrines. Torcedores comemoram títulos. Dirigentes, empresários e jogadores comemoram transações lucrativas. A equação é a seguinte: Taça = festa da torcida pelo título + festa dos dirigentes com possibilidade de lucro + empresários animados com a previsão de lucro ao quadrado + jogadores com mais chances de fazer a independência financeira no exterior.
Escrito por Rafael Carvalheira às 15h21
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Cabo eleitoral

O time estava prontinho, arrumadinho depois do Estadual. Fernando Bezerra Coelho mudou o treinador e perdeu os melhores jogadores. Mas não tem culpa. O clube está afundado em dívidas há 50 anos e sem receitas. O brasileiro tem memória curta. Ninguém se recorda que o projeto era arrecadar R$ 25 milhões com um fundo de investimentos. Simples assim. Tudo aprovado pelo Conselho. Infelizmente a crise mundial, essa danada, adiou o milagre. O Santa Cruz perdeu o competente diretor de futebol Ruas Capella. Fernando Bezerra Coelho não tem culpa. Já disse pra todo mundo que o clube não tem dinheiro. Garantiu trazer alguém tão bom quanto e mais barato. Não deu pra contratar Didi Duarte para a gerência de futebol. Deixemos o conselheiro Nevton Borba como interino e completamos o setor com, com, com... Mas a culpa não é do secretário de Desenvolvimento Econômico. Não há receita, minha gente. FBC mostrou ser também um descobridor de talentos. Trouxe o promissor Sérgio China para a única missão inadiável do Santa Cruz em 95 anos de história. E sempre me disseram que ele só entendia de administração. Quanta inveja. Na estreia, o presidente estava lá em Maceió. Deu volta olímpica no gramado ao lado do governador de Alagoas. Esse homem descobriu a fórmula de fazer futebol. Era tão fácil e ninguém havia pensado nisso. Ave, FBC! As coisas começaram a não andar. Mas a culpa não é de Bezerra Coelho. Ninguém leu a carta? É um tricolor como qualquer outro. Está ferido como qualquer outro. São os jogadores e o treinador que não correspondem à grandeza da torcida. Derrota para o Sergipe em casa é demais. Mas a culpa não é de dele. Como podia influenciar se estava tão longe. Dos Estados Unidos, justamente na competição mais importante da história tricolor, não tinha como oferecer suporte. Esse homem é muito ocupado. O clube está afundado em dívidas, não há receitas, os diretores são inexperientes, o treinador também, o time não funciona, os salários dos funcionários estão com três meses de atraso. Isso é coisa de Zé Neves, Romerito e Edinho. O presidente não tem culpa se as coisas não funcionam no seu clube. Quem botou esses incompetentes lá? Pelo amor de Deus. Esses amadores querem acabar com a imagem de Fernando Bezerra Coelho. É um complô. Só pode ser. Peço que se lembrem da linda reforma do Arruda, da festa no jogo da seleção brasileira, de como FBC ama essa torcida e faz tudo por ela. Reergueu a auto-estima de ser tricolor. Por favor, lembrem disso. O resto é supérfluo. Ele vai provar pra todo mundo a sua capacidade de administrar. Vamos, imensa torcida coral, a maior do Nordeste e mais apaixonada do Brasil. Vote em FBC para o Senado. Quando for empossado senador em 2011, mostrará toda sua habilidade. Prometo.
Escrito por Rafael Carvalheira às 11h58
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