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A enésima arte

A relação entre futebol e cinema está longe de ser estreita. Poucas produções cinematográficas exploram o assunto. Quando o fazem, a qualidade é sempre discutível. Vez por outra aparece um Boleiros.

Algumas poucas biografias se sobressaem. Rapidamente, lembro-me apenas de Pelé Eterno, que, aliás, se restringe essencialmente à carreira profissional do Rei.

Diretores são especialistas em manipular sensações, provocar tristeza, catarse, asco, resignação, temor... O desenvolvimento natural das técnicas amplia as possibilidades ano a ano.

Talvez aí esteja a explicação para as dificuldades de reprodução nas telonas do que acontece em quatro linhas. O futebol não se permite ser manipulado.

As experiências vividas dentro de um estádio ou mesmo em frente à TV são próprias do futebol. Como escrever um roteiro e depois gravar algo semelhante à Batalha dos Aflitos?

Impossível não somente do ponto de vista técnico, mas também de uniformidade sentimental. Os gremistas sentiram de um jeito; os alvirrubros, de outro. Restou a opção por um documentário.

E assim vieram em seguida os relatos jornalísticos da ascensão do Náutico à Primeira Divisão no ano seguinte, do título do Sport da Copa do Brasil e da história de queda e redenção do Corinthians.

Sendo assim, defendo a incorporação do futebol ao mundo das artes. O que não pode ser reproduzido já está muito acabado por si só. O cinema viveu processo semelhante no começo do século passado.

Convenhamos, hoje em dia – eita, termo desgastado – até história em quadrinhos e jogos de computadores ganharam o status honroso de manifestações artísticas, alçados a um pedestal cult.

Não falo apenas do que se convencionou chamar de futebol-arte. É qualquer tipo de futebol mesmo. Aquele jogado nos estádios mais modernos do planeta, mas também o disputado na praia enquanto o mar não enche.

Esqueçam o meio e tudo o que envolve uma partida: dirigentes, maracutaias, negócios, interesses e o que de mais existe. Atanham-se ao jogo. No máximo, incluam a torcida no pacote.

Qualquer torcedor já chorou, sorriu, festejou, lamentou, se espantou, gritou o que não devia, abraçou quem não conhece. Sentiu até vontade de matar, mesmo de forma simbólica.

Não se pode pintar com uma câmera, montar um filme no palco, encenar uma peça num livro, escrever uma escultura, esculpir uma música, tocar piano dançando balé ou dar movimentos de dança a uma Mona Lisa.

Não dá para reproduzir uma partida nas telas do cinema. Defendo a incorporação do futebol ao mundo das artes. Seja ele a oitava, nona, décima, vigésima ou enésima arte.



Escrito por Rafael Carvalheira às 15h10
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O homem sem cabeça

Cirque du Soleil Quidam

Já estava de saída da sessão de ontem do Cirque du Soleil. Como chovia demais, resolvi esperar um pouco embaixo das tendas. Outras pessoas, sobretudo algumas mulheres bem escovadas, tiveram a mesma ideia. Sujeito sem sorte que sou, percebo uma figura encostar para puxar assunto.

Era o poço de simpatia Givanildo Oliveira.O técnico do América-MG aproveitou uma folga na tabela da Série C do Brasileiro e fez um agrado à netinha mais velha.

Para meu espanto, o homem não estava tão rançoso como de costume. Obviamente reclamou dos preços. Em duas horas, gastou R$ 15 para estacionar o carro, R$ 26 de duas pipocas, R$ 8 de um cachorro quente e mais R$ 10 com dois refrigerantes.

Sem contar o valor dos ingressos. Por descrição, não perguntei. Nada, porém, que faça cócegas no bolso de um proprietário de mais de 40 apartamentos na cidade de Olinda.

Fez associações interessantes sobre o espetáculo Quidam. Comparou quatro malabaristas chinesinhas bem entrosadas à linha de ataque Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. “Se meus jogadores se entendessem tão bem, seríamos campeões mundiais”.

Não dá pra pedir que um cara que vive o futebol desde os tempos de criança se desligue da profissão. “Outra coisa, o preparador físico desse povo todo aí coloca qualquer Paulo Paixão no chinelo”.

Givanildo relembrou a qualidade dos músicos, o poder de improvisação dos palhaços, o desprendimento de algumas pessoas da plateia convidadas para fazer parte de dois quadros, a capacidade cênica, a beleza dos figurinos e das maquiagens, a criatividade dos números, a versatilidade da equipe inteira do espetáculo.

“É isso que todo treinador quer: jogadores que possam fazer mais de uma função em campo”.

A chuva havia diminuído, mas não o suficiente para me fazer buscar o carro. Se bem que, surpreendentemente, o papo estava agradável. Uma rápida parada no assunto. A netinha pedia mais uma pipoca para o avô. “Onde nós estávamos mesmo?”.

No final do espetáculo, Givanildo. A menininha reconquista a atenção dos pais. A vida real volta com seus encantos. O mundo da fantasia já cumpriu seu papel. Givanildo confessa até ter chorado.

A chuva havia parado. Estava me despedindo com uma imagem até simpática. “Já tô juntando dinheiro pro ano que vem. Aquele homem sem cabeça me deixou irritado. Pensei que ele ia tirar a fantasia e mostrar o rosto no final. Se ele voltar, ninguém me segura. Vou subir no palco pra descobrir onde miserável enfia a cabeça”.

O velho e bom Givanildo tinha reencarnado. Pra integridade física dos atores-músicos-bailarinos-ginastas-malabaristas-equilibristas, aconselho que retornem em 2010 com outra montagem. Quem sabe, Alegria.



Escrito por Rafael Carvalheira às 13h03
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Jogar pra torcida

No início do mês o Ministério do Esporte organizou em São Paulo o primeiro Seminário Nacional de Torcidas Organizadas, com líderes de 65 torcidas organizadas do Brasil. Seguem relacionadas abaixo algumas. Gravem bem os nomes:

- Ira Jovem (Vasco)

- Fúria Jovem (Botafogo)

- Pavilhão Nove (Corinthians)

- Fúria Independente (Guarani)

- Máfia Azul (Cruzeiro)

- Máfia Tricolor (Grêmio)

- Comando Vermelho (Internacional)

- Fúria Independente (Paraná)

- Guerrilha Jovem (Criciúma)

- Máfia Atleticana (Atlético-GO)

- Terror Tricolor (Bahia)

- Inferno Coral (Santa Cruz)

 - Gang da Ilha (Sport)

- Brigada Alvinegra (Ceará)

- Pavilhão 6 (Remo)

- Ira Jovem do Paysandu

Quando não no nome, as associações mais variadas à violência vêm representadas nos símbolos e escudos das organizadas. Basta conferir no Portal das Torcidas Organizadas (www.organizadasbrasil.com).

Palavras do ministro Orlando Silva: “Acredito que ninguém tem mais interesse do que as torcidas de expressar o seu amor pelo seu time. Isto inclui uma espécie de pacto em torno da paz nos estádios e o fortalecimento do futebol

Palavras do representante das torcidas, Valter “Magrão” Luís: “As torcidas não são inimigas, são rivais

Palavras do ministro interino da Justiça, Luis Paulo Barreto: “É importante as torcidas serem ouvidas e ouvirem o que o Governo tem a dizer”

E sabem o que as torcidas organizadas tinham a dizer? Questionaram a proibição da entrada de bambus nos estádios e pediram alteração do artigo de um projeto de lei da câmara que responsabiliza civilmente a torcida organizada pelos danos causados por qualquer um dos seus membros ou associados.

Por que motivo tratar como torcedor quem está preocupado em não ser responsabilizado civilmente pelos atos de seus integrantes? O pedido já constitui quase uma confissão.

Em vez de literalmente jogar para as torcidas (organizadas), o ministro deveria se preocupar em aparelhar o Estado para prevenir, vigiar, educar e punir com rigor. Porque os amantes de verdade do esporte não precisam de seminário para aprender a cobrar direitos, a cumprir deveres ou a torcer ordeiramente.



Escrito por Rafael Carvalheira às 23h36
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Senador, conselheiro e torcedor

O senador Jarbas Vasconcelos levantou às 6h30 do domingo após uma noite mal dormida. Na residência do Janga, iniciou o dia consultando jornais do mundo inteiro pela internet.

Leu no Kyodo News que um grupo de oposição no Japão pedia a queda do imperador Akihito, insatisfeito com a incompetência das autoridades locais em administrar as consequências de um terremoto.

Conferiu com atenção a manchete do Le Monde. Os oposicionista queriam a cabeça de Nicolas Sarkozy por conta do desemprego crônico entre os descendentes de imigrantes muçulmanos na França.

Ainda passeando o olhar pelos periódicos da Europa, baixou a página do inglês The Times. Crise forte no parlamento e requerimento de renúncia de Gordon Brown estampado na primeira página.

Não podia deixar de conferir as boas novas da Terrinha. Segundo o Portugal Diário, o clamor da oposição era pela saída do primeiro ministro José Sócrates. Nada de mais grave. Oposição pela oposição.

Atravessou o Atlântico e desembarcou nos Estados Unidos. Na Califórnia, o governador Arnold Schwarzenegger tem problemas graves com impostos e sofre forte pressão da população.

Desceu para o México. Encontrou no Diário de México acusações graves contra o presidente Felipe Calderón. Descaso com os santuários pré-colombianos forçaria um processo de impeachment?

Passou à América Central. Honduras, prioridade. O destaque do Honduras This Week era para a precoce insatisfação com o governo provisório. Ninguém foi eleito. Mas situação e oposição já pediam a renúncia do futuro presidente.

Veio para mais perto. Ali do lado, na Argentina. O Clarim explicava que a falta de manejo do sistema público de saúde para cuidar do surto de gripe suína ameaçava arrancar Cristina Kirchner do poder.

O senador já se sentia atualizado sobre o mundo. Caminhou na praia pela manhã. Tirou um cochilo depois do almoço e se preparou para assistir ao jogo do Sport contra o Avaí na Ilha do Retiro.

Chegou em cima da hora e encontrou dificuldades na fila do elevador que dava nos camarotes. Conseguiu se acomodar com a partida em andamento. A qualidade técnica ou a falta dela ninou alguns minutos de sono.

Voltou para casa com o 3x1 doendo na cabeça. Longe do Senado por conta do recesso, já sem cargo ou voz nos assuntos do Governo do Estado, lembrou que era conselheiro do Sport.

Associou o resultado negativo do time ao terremoto no Japão, ao desemprego de imigrantes na França, à crise do parlamento inglês, à oposição pela oposição em Portugal, às dificuldades com o imposto na Califórnia, ao descaso com os templos no México, ao golpe em Honduras e ao surto de gripe suína da Argentina.

Fez algumas ligações e adormeceu. Despertou na segunda-feira e reiniciou a rotina. Desta vez, foi direto ao Blog do Torcedor. Leu que o seu apelo de renúncia ao recém-empossado presidente Sílvio Guimarães ganhara destaque. Agora estava devidamente integrado à tendência mundial.

O presidente rubro-negro entendeu o torcedor Jarbas Vasconcelos. Respondeu de forma comedida. Sabe que os senadores terminam o recesso no dia 3 de agosto, quando tiro ao Lula também voltará a ser o esporte predileto do, novamente, senador.



Escrito por Rafael Carvalheira às 15h28
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